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O MISTERIOSO DESAPARECIMENTO DOS TATUÍS
abril 2016



O MISTÉRIO DOS TATUÍS

Os tatuís ou tatuíras são pequenos crustáceos decápodes (que possuem 10 patas), assim como os bens conhecidos siris, caranguejos, camarões e lagostas, dentre outros seres marinhos. À semelhança dos seus parentes, habitam os substratos marinhos, fazendo parte do grupo de organismos denominado bentos.


A família zoológica dos tatuís, os Hippidae, tem três representantes no Brasil, dentre eles a espécie Emerita brasiliensis, bastante conhecida dos cariocas. Apesar da ampla ocorrência geográfica (desde o México até a Argentina) relatada na literatura científica, a espécie é mais abundante a partir do Estado do Espírito Santo.


Os tatuís vivem em substratos ditos não consolidados (sedimentos), como as areias e os cascalhos. São facilmente encontrados nas praias, próximos à linha d’ água, mas também vivem em áreas permanentemente imersas do litoral (sublitoral). Banhistas desatentos ou ocasionais podem nunca ter visto um tatuí, apesar da sua presença constante nas praias. Isso se deve ao hábito de se enterrar na areia, deixando somente as antenas de fora, usadas para capturar microalgas que vivem em suspensão na água do mar (fitoplâncton).

Tatuís foram criados satisfatoriamente com uma mistura das microalgas Chaetoceros muelleri, Skeletonema costatum e Tetraselmis gracilis no Laboratório de Ecologia de Sedimentos da Universidade Federal Fluminense.

Apesar de serem organismos bentônicos, durante uma parte de sua existência os tatuís vivem em suspensão na coluna d’água, fazendo parte do chamado meroplâncton (plâncton temporário). Os tatuís são seres dioicos, ou seja, existem indivíduos machos e fêmeas na população. Sua reprodução não envolve cópula, mas a liberação de gametas masculinos e femininos na água, onde ocorre a fecundação. O ovo formado na fecundação dá origem a uma larva que passa por uma série de metamorfoses até atingir uma forma muito semelhante aos indivíduos adultos. Nesse momento, a larva passa a se chamar “recruta” e ela deixa a coluna d’água e se estabelece no sedimento como um juvenil, ainda não apto à reprodução. Desse modo, os tatuís tem um ciclo de vida com uma fase bentônica (adultos e juvenis) e uma fase planctônica (larvas).

Em condições de laboratório a fase planctônica pode durar entre 49 a 90 dias, dependendo da temperatura, entre outras variáveis. A fase bentônica foi estimada entre 7 a 9 meses. Portanto, a expectativa de vida dos tatuís é de no máximo 12 meses. Eles se reproduzem ao longo de todo o ano, apesar de existirem momentos onde a reprodução se intensifica e a ocorrência de recrutas e adultos é mais abundante nas praias.

As características geomorfológicas das praias têm sido estudadas para explicar a distribuição dos tatuís e de outros organismos do litoral. O tamanho dos grãos que compõe o sedimento, o grau de compactação do substrato da praia, a exposição à ação das ondas, a declividade do terreno e o estado de conservação tem sido motivo de estudos em diversas partes do mundo na tentativa de explicar o porquê de em algumas praias existir organismos em abundância e em outras eles serem raros ou ausentes. Estudos realizados em praias do Rio de Janeiro mostram uma grande variação na abundância dos tatuís. Os resultados mais confiáveis indicam uma relação da biomassa e densidade com o período de espraiamento das ondas e com a declividade do substrato na região entremarés.

Tem sido frequentemente veiculado na mídia o “desaparecimento” do tatuí nas praias do Rio de Janeiro, em especial na internacionalmente famosa Praia de Copacabana, onde os tatuís num passado não muito distante era um de seus ícones, segundo relato de antigos moradores e banhistas assíduos. De acordo com esses relatos, os tatuís eram extremamente abundantes em Copacabana e a partir de um momento, que é difícil precisar, o mesmo se tornou raro ou, segundo alguns relatos insistentes, desapareceu.

A maioria das pessoas atribui o desaparecimento ou a raridade dos tatuís à poluição do litoral. Mas, seria mesmo a praia de Copacabana tão poluída a ponto de estar causando a extinção local de espécies? Ainda, teria o tatuí realmente desaparecido de Copacabana, quando se sabe que o mesmo ocorre em várias praias do Rio de Janeiro, sendo muito abundante em algumas? As larvas produzidas por populações de outras praias chegam a Copacabana? Se chegam, por que não se estabelecem? Seria a presença maciça de banhistas responsável pelo seu desaparecimento ou raridade?

Essas e outras questões em aberto, esperamos responder num trabalho conjunto com o Instituto Aqualung e outros parceiros que possam constituir uma rede cooperativa de Ciência Cidadã. Afinal, não se pode deixar um ícone tão importante como o tatuí desaparecer sem mais nem menos de nossas praias sem podermos apontar a causa, não acham?

Além disso, um projeto de cultivo de tatuís em laboratório irá estudar a viabilidade de reintroduzir o tatuí em Copacabana e outras praias do Rio de Janeiro onde eles tenham se tornado raros.
 


Abilio Soares Gomes

Professor Titular do Departamento de Biologia Marinha e Vice-Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Dinâmica da Terra e dos Oceanos da Universidade Federal Fluminense. Criador e responsável pelo Laboratório de Ecologia de Sedimentos desde 1992.


Bibliografia Recomendada

Otegui, A.C.P. & Soares-Gomes, A. 2007. Desenvolvimento “in vitro” de larvas e juvenis de Emerita brasiliensis Schmitt (Crustacea, Decapoda, Hippidae) sob diferentes condições de temperatura, salinidade e regime alimentar. Revista Brasileira de Zoologia, 24: 277-282.

Pereira, R.C. & Soares-Gomes, A. 2009. Biologia Marinha. Ed. Interciência, Rio de Janeiro.

Petacco, M. & Cardoso, R.S. 2003. Population dynamics and secondary production of Emerita brasiliensis (Crustacea: Hippidae) at Prainha Beach, Brazil. Marine Ecology, 24: 231-245.

Veloso, V.G.; Caetano, C.H.S.; Cardoso, R.S. 2003. Composition, structure and zonation of intertidal macroinfauna in relation to physical factors in microtidal sandy beaches in Rio de Janeiro state, Brazil. Scientia Marina, 67: 393-402.

 

 

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